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domingo, 14 de novembro de 2010

101.113

Onde estás, o que fazes, não te sou útil?
um romance novo, uma vida nova?
Quantas questões levanta o silêncio.

Apenas sejas feliz, ou tenta, ou anda,
quantas respostas se produz
quando se está longe.

Tens tua vida, e o que queres carregar contigo,
não esquece os outros lados, todos os lados,
os diagonais, as curvas de tempo.

Quantas coisas se pensa dizer
quando há distância e silêncio.

domingo, 8 de agosto de 2010

Como Alma (041.110)

Como Alma despertava amores
E sentimentos vivos onde andava
A cor desesperada de Kokoschka
A melodia intensa de Mahler
Desconhecendo-se prisioneira
De um destino de Walquírias.

Herdas dos tempos a magia
E nem te sabes de todo
Aprisionada
Àqueles que libertas.

Cativo do tempo, aguilhoado à terra,
À pedra, ao que me trouxe
Não anseio menos tua presença
Nem menos a fonte
Ainda que igualmente desperte.

Destino estranho conviver contigo
Ainda uma vez.

Como Alma construindo-se
Nos amores e vivos sentimentos
Desconhecida de si mesma
Reflexo dos gestos, da presença
Alimentando-se das chamas,
As próprias chamas onde arde
E se consome
Como num destino de Walquírias!

segunda-feira, 7 de junho de 2010

Poe 100.306

como vais?
porque sempre se vai...
de encontro às feras, num complexo picadeiro
onde as palmas são menos que o suspiros
e a espera de que abra a cortina.
como vais, sinto o abraço
que gostaria de dar, e o peso do corpo
que não sinto...
de teu corpo, de teu suspiro, ou de tua ausência
não, não é como vais,
sei que andas teus caminhos.
onde me levas é que pergunto
caminhando tuas pernas,
teus pés,
tua ausência.

terça-feira, 1 de junho de 2010

POE 752.312

Viagem

Onde estaria no dia imediatamente
Anterior ao amanhã?
Sei das confusas presenças,
E as revelações chegam
Por estes amigos invisíveis,
Os pela última vez amigos,
Mãos que a dimensão ignora,
Em que a ponte é um cordão de prata
E o universo sempre paralelo.

Não abriram a porta do quarto,
E o signo da luz lunar
Não obliterou em nada, o Sol
Teve a mesma intensidade
Que se antevê, prenúncio e profecia,
já lendários nos mitológicos contos
De priscas eras,
Os amigos não trouxeram mãos.

Onde esta no últimoinstante
E não os vi partir.
Porquanto tempo será tudo assim,
O lábio a espera,
A mão aberta,
O passo suspenso,
Um bailado de borboletas e bruxas
Claras, numa noite de lunas,
Quase como o arrepiar das costas,
Um pressentimento apenas:
A questão olvidada de
Se ainda poderei aspirar
O que foi num tempo
O destino dos homens.

POE 902.008

Posso viver tuas ausências,
Ser companheiro e amigo,
Mas não posso pactuar em ser fração
Pois quero, verdadeira e definitiva
Como mulher e amiga.
És todas e não posso te ter assim
Dividida e fracionada
Estarei a teu lado onde estiveres,
À tua espera até que possas,
Ou nunca queiras.
Mesmo assim és coisa minha
Com a qual vivo.
Não podendo, cumpra-se o destino
De deserto e espera
E não seja esta dor
Impedimento para o amor e a luz
E sempre possas tê-lo de mim
Mas te quero... para a vida
Como mulher, todas as mulheres que és
E tudo o que possa ser.

domingo, 30 de maio de 2010

POE 902.008

O maior gesto de amor
Exige desprendimento e coragem
Para aceitar e dar-se
Em toda a extensão da vida,
Pela realização,
Pela felicidade,
Pelo direito eterno do ser amado
De existir, assim
Não seja amar-te qualquer prisão,
Seja poder esperar desprendido e livre
Pelas horas que precises,
Realmente precises
E se amanhã, solitárias manhãs
Suceder a noite que me ansies, estarei pronto.
Movido pela mesma chama,
Mas livre de teus fantasmas,
E não serei prisão nem porto.
Amanhã saberei onde estás,
Serei como os destinos e as vidas me fizeram,
E tu como os sonhos e os medos,
Terás fantasmas demais a povoar os sonhos,
E eu, bruxarias de menos

POE 901.703

Como é possível que a tensão da espera,
pela felicidade de tua chegada
destruísse a alegria do teu encontro.
Chegastes e já te havia sentido,
e não fui o abraço feliz,
não fui alegre.
Deixa-me partir se não puder
ser um passo leve, uma brisa,
um encantamento
para a infinidade que és,
que aspiro sempre como o ar
e nem sempre manifesto o que me fazes.
Perdoarás que eu seja assim,
poderás viver estas frações de vida
quando somos totalidades?
Deixa que eu te ame
e descubra neste amor a alegria,
a festa, a vida,
toda a plenitude da vida.

POE 900.103-3

Manhã de azul completamente céu,
em que o destino do homem
É claro raio de Sol
Ou noite.

Hora semelhante àquela sobre as areias
Em que afronta sua hora o homem
Sobre as ardentes dunas
Dos desertos.

É sempre dia claro após as borrascas
E as mais intensas tempestades
Das fúrias despertadas
Na vida.

Manhã, hora e claro dia sempre
Quando antecede o momento fatal
Do derradeiro embate
A escolha.

E seremos cada um a seu modo
Trevas ou luz, amor ou ódio,
Luminosas esperanças vivas
Ou pranto.

E estarei a teu lado e dos homens,
Velhos, crianças, desamparadas e tristes
Apenas porque posso ir ou ficar
E decido.

Encontrando na escolha a resposta
Serei amanhã, raio de Sol ou estrela
E conduzindo um deserto
Encontro.

Serás como árvore de frutos doces
Á sombra da qual descansam as armas
E se recuperam os ideais
E as forças.

Serás como a flor que há no campo
Em meio aos destroços e anunciando
que sempre haverá amanhã
E vida.

Serás como a desdentada criança, rindo
O inocente riso das inocências
Mostrando aos sobreviventes
O amor.

Serás como o velho alquebrado e à morte
Ressequido e frágil, solitário e triste
que mostra aos jovens e fortes
A passagem.

Serás a razão da ponte no leve passo
Justificando o forte pilar que sustenta
A decisão de ser
E o rumo.

E saberás por este momento intenso
Que somente uma vez nos encontramos
Depois seremos senhores e pilares
Para os passos.

Da humanidade que segue eternamente
Pois mesmo à hora derradeira segue
Outro momento, outra transformação
Sempre.

Serás também um momento decisivo
Mas pela própria e clara manhã
Do alvorecer do que terá de vir
Em teu ser.

Serás deserto ou praia, estrela ou campo
Alegria ou dor ou tudo isto
E o que mais te encontre
Em vida.

Serás a glória eterna do renascimento
Da consciência e da vontade
E crendo dirás em meio à vida
“Eu sou”.

POE 900.103-2

Clara manhã de Sol
As multidões sonolentas ganham as ruas
Enfrentando-se, coloridas e confusas,
Que é um enfrentamento contínuo
Contra o não ver, não sentir,
Adiar-se e não ser
Dos homens que passam.
Dirás que é um jogo de palavras
E direi que é um jogo de palavras
E direi que é um jogo de vida e morte,
De damas e cavalheiros
Num longo xadrez postal.
               
Dirás que és igual e por querer
Diferes destas multidões que seguem
Direção nenhuma.
Apenas multidões coloridas e sonolentas,
De panos e plástico,
Bocejantes,
Adormecendo os televisores.

Dirás que és igual e lutarei à morte
Para que um dia hajam mais
Destes que passam
Com a tua igualdade.
Sendo o que és igualas e superas
A mim que sou o menor dos irmãos
E descobrindo a simplicidade que tens
Descubro a complexidade que são
As multidões que passam,
E ouvindo música,
Pintando ou te ouvindo
Preparo mais uma rodada de cartas
De antemão marcadas,
Jogo de sem fim que se joga
E podem ser apenas sensações de nós,
Apenas em nós...

POE 900.103

Oráculo
Crê na vida,
Não me verás outra vez
Do mesmo jeito,
Nem me terás da mesma forma
Duas horas seguidas.
Aquele raio de Som sobre a terra úmida
Clama por uma semente e uma mão que plante.
Aquela criança faminta espera
Pela dignidade que sacrifique o leito
E faça a justiça.
Aquela gente inteira é fruto
Que plantamos no ontem
Da inconsciência e do conveniente.
Agora crê em ti mesma
E tenhas o cântico dos guerreiros e guardiões,
As armas prontas e o passo certo,
Pois não te terás outra vez
Na mesma hora.

sábado, 29 de maio de 2010

POE 902.601-2

Manhã,
em que mais fantasmagórica
a alegoria das ausências
preenche as coisas...
Sinto tua falta de um modo estranho
quase irreal,
nos limites do humano.
Preenches e ao mesmo tempo
é como se não estivesses
e, no entanto, real
quase posso tocar e beijar teu riso...
Manhã que avança
enquanto os deveres,
ou os hábitos,
ou um não saber bem o quê
empurram para trás as ausências e saudades.
Manhã
em que tudo poderia ser por tua causa,
absorvendo em mim,
temores, resíduos e escombros
da imensidade que és
e de alguma forma custa a chegar...
Ouço canto de pássaros e vendo o sol altear
escuto tua voz como se estivesses
e compreendo tua eternidade.

POE 902.601

Bruma

É manhã do dia vinte e seis, pela janela os raios de sol amarelam inebriantes os morros em volta da cidade. Algumas impressões de ontem estão vivas, da noite se esfumaçam como os temores da manhã e o sono confunde as idéias... não consigo dormir a tua saudade, nem ter a paz necessária, nunca soube e somente aprendi em meio a turbulência, talvez seja assim, a paz seja uma utopia inalcançável para os nossos iguais .

Não procuro respostas, deixo que apareçam os fantasmas, sento com eles e trocamos nossas impressões mais antigas, pois são como fantasmas que mal consigo delinear, as desrazões dos fatos, como saber até onde de nossas missões? E estás tão real como o Sol na nova manhã, e terei de lutar pelo direito de poder estar contigo e conquistar do direito de ser em ti e , no entanto, nada há a lamentar que não tenha sido criação de nossa inconsciência.

POE 902 001

E eu que pensava estivesses feliz,
E que terias um porto,
Um companheiro.
Esqueci temporariamente de algumas coisas
Enquanto esperava teus olhos. ,
Culpar-me a felicidade de estar perto
De alguém que amo?
Não!
Culpar por não ter sido maior,
Quando fui exatamente o que eu sou,
Sem mascarar mesmo as faltas menores
E assumindo as maiores?
Culpar por ter permitido que amasses
Um mito ou um sonho?
E como saber que não era a mim que vias
Mas um ideal de nem sei onde?
Culpo sim, mas o não ter percebido
Que nada pode impedir um destino de encontros

POE 901.901

O que desperta a vida
é maior que a dúvida,
tem em si a certeza do ato.
O despertar da vida
fora sempre um parto à humana gente,
como carma e resposta
dos mal vividos dias do passado.
Hoje te encontro em meio às ruínas
sem ser maior que os escombros
de onde venho,
apenas indo.
Querias limites e o ser não tem,
querias respostas?
Responder é apenas mover-se
com a totalidade que se tem e é,
assim sou o que está sendo.
Justificar é estar atrás,
viver é além,
é estender os cordões invisíveis
e bailar como um pássaro
no infinito céu que há no peito.
És mulher por isto mar
E um homem
ou é oceano ou náufrago,
mas o que desperta a vida
é a própria vida...

sexta-feira, 28 de maio de 2010

POE 901.901

Como seria se não estivesses,
não fosses esta incompleta presença
que traz todas as possibilidades?
Será possível que a liberdade te prenda
e a questão que tenhas
seja medo de que não possas?
Se te prendes ao que pensas
és imensas em teu mar
temendo que eu não seja oceano.
Saiba que se o amor
não me levar a levar-te
me fará navegar nos limites
onde há todas as profundidades,
e se não houver teu mar,
o infinito de tua presença,
haverá uma nova cicatriz no peito
e a certeza de que poderia ter sido,
de que sempre será possível.
Serás plenamente feliz um dia
e eu terei a esperança ao invés da chaga.

POE 892.912

É difícil amar aos poucos,
Então me tens em frações
E quando vens
Sou menos do que seria...
E me culpo pelo que não fui
E sinto que ao saíres
Te culpas pelo que não destes,
E, no entanto, estivemos tão perto
Que quase fomos tudo...
Tropeçamos nossas humanidades,
Os limites,
As convenções e os cuidados
E amamos bem menos
Que o imenso amor que temos...
Que posso pedir ou querer
Além da possibilidade viva
Depois de tanto tempo
De te amar outra vez.

POE 892.912

Sabia que virias,
E esperava sem precisar a hora,
Até que a porta se abriu
Em teu sorriso e gesto de dança,
Leve como o chamado
Que te enviava,
Náufrago desta paixão.
Chegastes lépida,
E não corri ao teu encontro
Como corro agora em busca de teu vulto.
Fiquei imóvel.
Chegastes viva pela saudade
E eu morto de espera.
E ainda agora longe
É como se não tivesses vindo
E recomeçasse outra vez
A agonia da tua ausência...

quinta-feira, 27 de maio de 2010

POE 892.412

Não te encontraria
E de qualquer modo vim,
Como se encontrando teu lugar
Fosse possível sentir menos
Esta falta...
Não,
Posso preencher o tempo
Com todas as ações e feitos
Mas não posso extinguir
A sensação de tua ausência,
E, no entanto,
É a sensação do ausente
Que caracteriza a presença.
Então agora sei
Que vindo ao teu lugar
Estou contigo.
E sendo eu mesmo em ter saudades
E tudo o mais que é vida,
Em sendo e me tendo
Tenho a ti e a todas as coisas.
Sei que posso ir
Que eu me levando te levo
E enquanto te amo
É a vida inteira que amo
E carrego em mim...

POE 890.511

Porque me fazes cantar
Quando penso teu canto
E fazes sorrir diante das coisas banais que não veria,
E enternecer na entrelinha
Comovido e amigo;
Porque tenho esta vontade
De correr no campo e ser relva, folha
Pássaro e nuvem;
Porque penso nos velhos
E sofro as dores do mundo como nunca,
E acima do pranto
Encontro o renascimento e o ser.
Por tudo isto,
E por sofrer muito mais pelo que podes
E não deixas...
Por esta lástima,
Esta angústia que rasga
E faz sentir a impotência;
Por querer ser ponte
Pela qual encontres teu destino
E possa ver-te seguir, seguindo;
Por saber que um dia serás
E querer repartir este universo como o Sol
Renascido em cada reflexo;
Por saber que tem de ser assim
Cada hora e minuto
Na reconstrução da vida,
Até que não precises mais e pela ausência
Tenha de viver, outra vez,
Entre as dunas e as palmas,
Pela estrela solitária e farol dos imortais,
Marco infinito que olharei nos céus,
Apontando a missão;
Por tudo isto que sei
Trazes mais que me levas,
Descubro, como lei universal,
Atraindo mundos, homens e mulheres
Que amo...

POE 902.008

O maior gesto de amor
Exige desprendimento e coragem
Para aceitar e doar-se,
Toda a extensão à vida,
Pela realização
Pela felicidade,
Pelo direito eterno do ser amado
Existir em si mesmo e por si mesmo.